OS NEGROS

O espectáculo delineia uma configuração topologia, constituída por três patamares, dispostos verticalmente: o espaço onde se situa a corte e a Rainha, que representa o espelho do domínio do colonizador; o espaço onde se situa a Felicidade, uma negra imponente; e a plataforma de base, que representa os colonizados, ocupada pelas restantes personagens. Esta estrutura topológica define as relações de poder entre as personagens e é nela que se constrói o espaço do drama, onde as vozes, os coros e os risos orquestrados dos negros, conferem ao espectáculo o grotesco, atingindo as fronteiras da paródia.

Uma urdidura complexa, que se compõe numa atmosfera de ritual, de cerimónia, numa espécie de liturgia paródica.

Texto Jean Genet

Tradução Armando Silva Carvalho

Encenação Rogério de Carvalho

Actores Angelo Torres, Binete Undonque,

Cleo Tavares/Odete Mosso, Gio Lourenço,

Igor Regalla, Júlio Mesquita, Laurinda Chiungue,

Matamba Joaquim, Mauro Hermínio,

OrlandoSérgio, Renée Vidal, Sandra Hung,

Zia Soares

Cenografia José Manuel Castanheira

Design de luz Jorge Ribeiro

Figurinos Catarina Graça

Adereços Mónica de Miranda

Design de som soundslikenuno

Voz e elocução Luis Madureira

Coreografia Rose Mara da Silva

Fotografia Sofia Berberan e Mário César,

Estelle Valente

Co-produção Teatro GRIOT, São Luiz Teatro Municipal

Produção executiva Urshi Cardoso

M/14

Jean Genet, autor

Volto a repetir: esta peça, escrita por um Branco, destina-se a um público de Brancos. Mas se por um acaso muito estranho for representada para um público de Negros, será necessário, em cada sessão, convidar um Branco - homem ou mulher. O produtor do espectáculo deverá recebê-lo com a maior solenidade, fazer com que se vista de cerimónia e conduzi-lo ao seu lugar, de preferência na primeira fila da plateia. Os actores irão representar só para ele. E durante todo o espectáculo um projector incidirá sobre este Branco simbólico.

E se nenhum Branco estiver disposto a isso? Então distribuam à entrada máscaras de Brancos ao público negro. Se os Negros recusarem as máscaras dos Brancos, usem um manequim.

Rogério de Carvalho, encenador

Uma situação de choque, turbulência através de uma representação alegórica, a ironia de um ritual que termina em massacre. O espectáculo abre, para os negros, ao nível da consciência, a busca de uma identidade que não seja a imagem que o branco tem do negro. O negro quer libertar-se dessa mácula, o que lhe daria liberdade. É nessa ilusão que a peça encontra o tema da negritude. O horror do espectáculo está em tratá-lo de uma forma irónica, atingindo as fronteiras da paródia.

Nunca se deixa de ter a percepção de que a verdade do palco significa jogo por parte dos actores. Vive-se o ritual. Trata-se de um espectáculo cerimonioso, de momentos ritualísticos. Basta dizer que a representação é ritual? Que fronteira entre a

representação teatral e a ritualização? Que papel conferimos aos espectadores sejam eles brancos ou negros? É necessário que a cena seja legível, em que termos para cada uma das cores? O que é a cor preta, já que a cor negra é, em certos países, pejorativa? O que é ser negro quando não se vive num país negro?

Zia Soares, directora artística do Teatro GRIOT

13 actores negros em palco.

13 actores negros provocam invariavelmente a mesma pergunta, feita com mais ou menos espanto, raiva, benevolência ou ironia: porque que é que estão a fazer esta peça só com actores negros? No palco, onde os actos de transgressão são cada vez mais difíceis e extremos, questiona-se - eu também - porque é que 13 actores negros num

palco são ainda um acto de transgressão, e o que isso nos diz, a todos, sobre nós próprios.

Chegamos aqui, estamos aqui, com este elenco exclusivamente negro, com um encenador negro (afinal, o que é ser negro?), para por fim quebrar o silêncio. É aqui que nos permitimos Falar. Experimentando as possibilidades da voz, negra (afinal, o que é ser negro?), desafiando os limites do dizível, colocando-nos no abismo onde as palavras

perdem o sentido utilitário e o texto acontece no corpo, negro, esse corpo que, afinal, pode ser trespassado pela luz.