Que Ainda Alguém Nos Invente 

Que Ainda Alguém Nos Invente é um texto dramático inédito de Ricardo P. Silva, inspirado na vida da Rainha Njinga Mbandi de Angola (1582-1663), escrito para o Teatro GRIOT. 

O espectáculo é um ritual que vacila entre o orgulho e o remorso. Entre o conflito e a confidência fundem-se os papéis de rainha e mulher. Deixa-se de se distinguir quem é quem na glória e na vaidade, pois o atrevimento também é próprio da conquista.
Njinga Mbandi invoca os seus mortos numa conversa consigo mesma, fala do que foi e do que poderá nunca ter sido, não esgota o seu transe em estórias reféns do seu tempo. Resistindo sempre, dissimuladamente. Atormentando e perseguindo à vez ora homens ora vontades, as suas e as dos a si entregues, guerreiros, escravos e traidores. Filha, irmã e amante, Njinga terá tempo de contar a sua versão, escusando-se ao logro de um passado forjado, divinizado e imaculado no seu desígnio. 

Texto dramático inédito Ricardo P. Silva

Encenação Paula Diogo

Actores Daniel Martinho, Gio Lourenço,

Matamba Joaquim, Zia Soares

Música original DJ Marfox e DJ N.K.

Movimento Vânia Gala

Materiais cénicos Francisco Vidal

Espaço cénico e figurinos Mariana Monteiro

Design de luz  Pedro Correia

Design de som soundslikenuno

Assistência de encenação Carlos Alves

Tradução para kimbundo Galiano Neto

Fotografia Sofia Berberan

Vídeo teaser David Cardoso

Produção executiva Urshi Cardoso

Co-produção Teatro GRIOT, Teatro Municipal

do Porto

Duração aprox. 1h30 

M/14

Ricardo P. Silva, autor

“Que Ainda Alguém Nos Invente é um texto inspirado na vida da Rainha Njinga Mbandi, soberana do Reino do Ndongo e da Matamba e o resultado de um intenso processo de filtragem de informação, baseada em narrativas deixadas ao longo de mais de três séculos por intervenientes reféns da sua própria agenda política, fins religiosos ou meros compromissos comerciais. A peça determina por isso que prevaleçam apenas os indícios, os prenúncios e os sintomas do que poderá ter sido. Sabe-se hoje e saber-se-ia então que a distorção premeditada de narrativas, de maneira a influenciar a perceção de modos de vida diversos, faz com que não seja possível distinguir com segurança facto, mito ou manipulação. A discussão académica sustentada em grande parte pela documentação produzida pelo padre capuchinho Cavazzi de Montecúccolo e pelo historiador e militar português António de Oliveira de Cadornega, ambos coevos de Njinga Mbandi, ou pelos estudos mais recentes de historiadores como John Thornton ou Joseph C. Miller, assim como tantos outros artigos de investigação de inúmeros autores contemporâneos, deixa bem claro que não existe consenso em relação a muitas das famosas ocorrências relatadas e que ao longo destes 350 anos se têm vindo a sedimentar no imaginário coletivo. Mas para além da fantasia subsiste, porém, sempre algo que resiste, para além da apologia e da censura, independente. Permanece, no caso, o carácter extraordinariamente forte, hábil e intempestivo de Njinga Mbandi. E é por via desta certeza que a peça se desenvolve, através de um constante jogo de insinuações e especulação, conflitos e confidências entre quatro personagens, todos vivos e todos mortos, Njinga e o seu pai Ngola Kiluanji, Ngola Mbandi, irmão, ambos 

de origem Mbundu e ainda Kaza, o seu marido--aliado, de origem Imbangala. Guerreira e adivinha, déspota e heroína, protectora dos seus, comerciante de escravos, letrada e vaidosa, cruel, orgulhosa e imprevisível, Njinga aterrorizava – perseguindo – e enquanto perseguida, resistindo, jamais se rendeu.”

Paula Diogo, encenadora

“Nesta reflexão sobre a figura de Njinga Mbandi, o primeiro  movimento foi o de conhecer uma personagem sobre a qual sabia muito pouco e essa primeira aproximação abriu caminho a outras aproximações a territórios igualmente desconhecidos: à história de um país que começa a escrever a sua História em nome próprio, à história de um povo que quer participar da escrita da sua própria História, à história de uma língua materna que não cabe dentro da nossa boca porque nunca nos foi ensinada, à história de uma geração que nasceu entre dois países e que não tem a nacionalidade necessariamente escrita no passaporte.

O espaço cénico do espectáculo foi construído seguindo uma lógica de pilhagem, que reproduz o espaço do atelier do artista Francisco Vidal invadido pelas palavras do Ricardo P. Silva e pelos corpos dos actores em luta com o movimento da coreógrafa  Vânia Gala. 

“Que Ainda Alguém Nos Invente” é também uma guerra. Os corpos são obrigados a manter-se em movimento, avançando e recuando, varrendo o espaço ou sendo varridos, reinventando territórios e fronteiras e convocando periferias invisíveis. A música do DJ Marfox marca o compasso dessa latência e apela constantemente à resistência ao delírio.”