O lugar por onde a vaca passou

O Teatro GRIOT convidou o coreógrafo João Fiadeiro e o artista visual Francisco Vidal para a criação de um espectáculo que procura o “território do meio, do intervalo e da suspensão..." (João Fiadeiro) como lugar de eleição, onde o espectador tem a sensação

de ter entrado numa peça já em andamento e sem fim. Tendo por base a ideia de ruína, de um texto que é o vestígio de uma língua, transmutado pelos copistas, pela tradução, pela química, pelo tempo e pela História, surge O lugar por onde a vaca passou.

A partir de duas traduções distintas de “Prometeu Agrilhoado” de Ésquilo, especificamente do encontro de Io com Prometeu, o espectáculo propõe uma espécie de meta-diálogo entre traduções (entre tradutores), que se aproximam, se afastam e se cruzam, chegando mesmo a sobrepor-se de quando em quando. Num deslocamento do

foco, coloca-se o protagonismo na exilada vaca Io que se atravessa na vida do prisioneiro Prometeu.

João Fiadeiro, encenador

"Construiu-se um espectáculo onde as palavras não são a possibilidade de um texto transposto para a voz dos actores sem filtros, ou sequer a reescrita do texto. Seguindo o que é habitualmente a minha práctica coreográfica, desta feita transposta para uma linguagem teatral, face à restrição uma condicionante inicial aqui na forma de um teatro ruína, integra-se, naturalmente, no processo como uma condição. Foi na comparação das diversas traduções, que fiquei fascinado com o modo como pequenas nuances e formas distintas de abordar uma mesma ideia, palavra ou frase, geravam traduções distintas (embora equidistantes) do mesmo texto. Por exemplo, para a palavra "povo" de uma das traduções, podia-se encontrar equivalentes como "gente", "raça" e "quem" nas outras propostas. E aqui nasce a pergunta-afeto que serviu de ponto de partida para dar início a esta encenação: seria possível colocar lado a lado (ou cima a cima) duas traduções em simultâneo? O que aconteceu é que o "efeito eco" criou uma espécie de

meta-diálogo, uma inesperada musicalidade."

Adaptação e encenação João Fiadeiro

Actores Ana Rosa Mendes, Gio Lourenço,

Margarida Bento, Matamba Joaquim

Cenografia Francisco Vidal

Assistência à cenografia Micael Costa

Design de luz Eduardo Abdala

Figurinos Inês Morgado

Fotografia Imagerie-Casa de Imagens

Produção Teatro GRIOT

Duração aprox. 50min

M/12